5.1.18

Gostava que vissem o nosso céu daqui, meu amor. Gostava que vissem as nossas estrelas, neste céu azul escuro, carregado de silêncio e paz. Gostava que sentissem esta paz, e este silêncio, nesta escuridão que nos penetra e nos sussurra ao ouvido um nevoeiro de emoções e de frio, mas ao mesmo tempo tão quente, tão aconchegante, tão nosso. Agora que vejo o céu, não te vejo mais meu amor. O frio passa-me a alma e toca as cicatrizes que tu deixaste. E eu sinto-me bem, debaixo deste céu azul escuro, com as estrelas que iluminam o mundo. Eu preciso deste silêncio, deste escuro, para me encontrar a mim. Preciso deste espaço que por momentos achei que estava em ti e que iria brilhar verdadeiramente. Mas tu não fizeste mais do que escurecer-me, ofegar-me com a tua luz, com essa tua luz que brilha menos que este céu escuro e que magoa mais que este silêncio frio. Debaixo deste céu azul escuro. Como gostava que visses este céu azul e estas estrelas, meu... . Desculpa, nunca me pertenceste. Mas eu dei-me sem perguntas, sem questionar, sem pensar. Principalmente sem pensar. Entreguei-me onde não havia amor, mas sim fome. Entreguei-me onde não havia compaixão, mas sim egoísmo. E sobretudo entreguei-me a um espaço que, se eu o deixasse, a raiva e o rancor iriam ficar. E foi isso que eu te deixei. Mas o que eu deixei preenchido, tornou-se um vazio em mim. E esse vazio em mim magoar-me-á muito mais, gelar-me-á muito mais. Não gostava que o sentisses. Não gostava que ninguém, algum dia, se sentisse assim. Mas gostava que sentissem este frio, debaixo deste céu azul. Tu não. A quem não me traz paz, também não quero que me veja debaixo deste céu azul. Debaixo das minhas estrelas. Debaixo das estrelas do mundo. Onde, no silêncio, recupero mais um pouco de mim. Onde recupero mais um pouco do que ingenuamente deixei. Neste lugar onde, ingenuamente, sei que pertenço.
A tua carta despedida J. 

(Big Picture - London Grammar)

7.9.17

Lembro-me de tocares na minha mão. Lembro-me de tocares na minha mão, de a abraçares como se fosse tua. Lembro-me de sentir o suor na palma da minha mão e de esboçar um sorriso sempre que as nossas mãos escorregavam. Iria jurar que ficavas ainda mais aflito sempre que isso acontecia. Não, juro que sim. E lembro-me de sentir o meu peito cheio, com vontade de sorrir pela rua fora, agarrada à tua mão. Se queres que seja sincera, não me lembro do conteúdo da tua conversa, mas sei que a tua voz parecia ser a melhor melodia que alguma vez alguém conseguiu compor. Eu sei que sim. E descemos a rua assim: de mãos dadas, de sorrisos dados, de ouvido e boca dados. Porque é assim que eu fico: uma criança a ouvir a história do dia, uma mulher a ouvir o concerto da noite. E é assim que tu me deixas. E isso não preciso de me lembrar, porque o sinto todos os dias. Pelo menos sempre que me lembro, o meu coração cresce no peito. Achas isso possível? Eu acho. Contigo acho que tudo é possível. Não, tenho a certeza que sim.

Salvapantalhas - Loco

6.8.17


Memórias fotográficas de uma viagem que (ainda) faz o meu coração disparar no peito. Cada passo, cada discussão, cada sorriso, cada toque do vento na pele, cada arrepio ao entrar na água, cada gargalhada, cada... tudo. Eles fazem-me crescer. Eles são a minha família. Já não existo sem eles. Isto é amor, quando sentimos que estamos mais presentes nos outros, quando o que fazemos ingenua e naturalmente é dar-nos a eles, quando o silêncio torna-se confortável e os toques falam por si. Isto é amor o que eu sinto por eles. E isto definitivamente foi só o início da aventura de uma vida.

Intra-rail Julho 2017
Abrantes - Coimbra - Tomar - Coimbra - Óbidos - S. Martinho do Campo - Leiria - Évora - (Casa Branca) - Beja - (Pinhal Novo) - Faro - Lagos - Guia/Albufeira - Zambujeira do Mar - Lisboa - Porto

1.6.17

(Há coisas na nossa vida que por vezes deixam de fazer sentido. Crescemos, mudamos objetivos, perspetivas, criamos medos e insistimos em tapar-nos deles. Achamos ser esta coisa nova, mudada, crescida, e, sim, repito estas palavras, porque creio serem elas que nos cegam o pensamento. Pelo menos foi o que me aconteceu a mim.)

Eu desisti de mim antes de tu desistires de nós. E hoje os meus pés sentiram a calçada com a ingenuidade velha que me enchia mais que o peito, transbordava da minha alma. Hoje caminhei num sentido que há muito deixara de o ser e que se perdeu entretanto nesta vida desorganizada que se transformou a minha. Ficou assim, como estas palavras: sem sal, sem mar, sem ti. Sem ti vivi eu estes últimos meses? anos, não sei. E sem ti viveste tu, porque julgaste ter-te abandonado. Mas o que aconteceu foi que eu abandonei-me a mim mesma: abandonei a inocência, a fé nua e virgem, a ânsia e a sede, e deixei que algo mais fútil, banal, adulto? se apoderasse desta minha mente. Ora, fui deixando-me vencer pelos meus medos e pelas minhas angústias e, ainda mais, por este sentimento de inércia e desorganização. Tu sabes o quão organizada eu era dentro da minha desorganização. Eu sabia onde estavas tu, o sol e o mar. Sabia onde estava o sal que dava sabor à minha terra. Há muito que deixei de ver nascer um fruto carnudo e doce dela.
Hoje senti o sol a bater-me no rosto; senti o vento a acariciar-me as bochechas; fechei os olhos; pensei em mim. Não tinha papel e caneta e enquanto olhava para as sombras e sentia o sol e o vento a bater nas folhas, pensava em mim. E sentia o sal na minha boca. E senti. Sabes o que isso significa? Se não pensarmos muito, já sinto os meus pés na areia e o teu beijo de sal na minha boca. Se não pensarmos muito, sinto a velha ingenuidade minha, tua, nossa. Não penses muito...


Rooting for you - London Grammar