5.7.18

(rascunhos das cartas que sempre te quis escrever)

No toque dos teus lábios eu senti paz. Estou a tentar lembrar-me daquele último beijo, daquele último toque. Houve momentos em que achei, muito honestamente, que iria esquecer-me do calor do teu corpo abraçado ao meu, mas frio, porque tinhas acabado de estar nas ondas daquele teu, nosso, mar. O calor do teu abraço, misturado com o frio gélido da água salgada daquele mar, a proteger-me do vento frio das 6 da manhã, era o meu escudo, o meu infinito. O tempo parava e a minha mente aclarava. Lembro-me de não lembrar-me de mais nada, de não pensar em nada, só de sentir aquele momento, aquele tempo, aquele abraço. E de nariz enroscado no teu peito, sentia os beijos no meu cabelo, na minha pele. E por momentos achei que já não sabia que sensação era esta e isso entristeceu-me tanto, mas tanto. Juramos nunca nos esquecer-mos um do outro, lembras-te? E na minha memória ter-me passado o pensamento que me tinha esquecido de ti, desse mar e desse abraço, só entristecia ainda mais este coração que te pertenceu por inteiro. Mas comecei por sentir a paz daquele beijo, daquele beijo de despedida, com menos sal do que aquelas manhãs de praia e surf, mas com tanta paixão e ainda mais amor. Porque o amor fez-nos crescer e deu-nos muito mais do que uma história bonita para compor estas páginas. Deu-nos paciência para aceitarmos os dissabores da distância e das paixões mal-amadas, ou mal-saboreadas. Deu-nos humildade para aceitarmos o egoísmo do outro e sabermos deixar partir quando assim tem de ser. Deu-nos um ideal de como o amor deve ser. Um amor sem paz não é amor. E nós sabemos isso porque na paixão já sentimos a guerra que muitas vezes incendeia as nossas artérias e cega-nos com desilusão e ingenuidade. No teu abraço eu era ingénua, mas era diferente... A paz que eu sentia, que me permitia ser ingénua, era diferente. E lembrar-me disso, lembrar-te de ti, deixa-me assim: feliz. Feliz, calma e ingénua, como se tivesse dentro do teu abraço. Aquele último beijo, a esconder um olhar mais triste, uma lágrima mais triste, foi o início de uma vida para nós os dois. E sou feliz por recordar-me de ti, dos teus beijos e dos teus abraços, sempre por inteiro, porque é assim que o amor deve ser, inteiro.

Leon Brigdes - Mrs.

24.3.18

Não consigo esquecer-me. Estou neste impasse parvo que me impede de dar um passo, de olhar mais profundamente, de sentir sem medo. Tudo porque não consigo esquecer-me. Não consigo esquecer-me do bom, da calma, das mãos dadas, dos sorrisos, das sessões de cinema que terminavam em beijos, das músicas com sabor a verão, do calor da tua pele, da calma do teu abraço. Não consigo esquecer-me. Parece que estás tão marcado como as tatuagens na tua pele. Parece que estás tão marcado como as tuas tatuagens mal definidas, que estavam a precisar de retoques. E acho que a minha memória não se consegue esquecer deste amor mal definido. E o problema é tão esse: o que está marcado em mim são só memórias boas. A revolta é sentir-te com amor e saudade e ter de me esforçar para borrar-te com os sentimentos de desilusão e tristeza que me inundaram mas depressa se desvaneceram. A revolta é sentir-te ainda com tanto amor e tanta saudade. Tal como as tuas tatuagens, preciso de definição; preciso de sentir o que não faz parte de mim naturalmente; preciso de encher a tua memória com a tristeza que me deixaste, com o teu egoísmo, com a tua cobardia. Preciso de esquecer-me. Preciso de esquecer-te.

(Kodaline - The Riddle (From a Kuala Lumpur Rooftop))

18.2.18

(rascunhos de cartas que sempre te quis escrever)

Guardo-te em mim como se fosses parte de mim. Guardo-te em mim como se fosses parte de um orgão meu: um quarto de um pulmão, um quinto do fígado, um décimo de uma parte do intestino, um terço de um rim... Literalmente. Não me vejo sem pensar em ti. Não respiro sem pensar em ti. Não penso sem saber que estás aqui. E não me custa, sabes? O dia a dia é tão pacato e tão rotineiro, que és parte da rotina, da casa, e sinto-me bem sabendo que estás. Sinto-me bem sabendo que estás. Estar. Nunca este verbo fez tanto sentido, sabes? Estar não implica uma presença física. Vivemos tanto tempo juntos sem nunca estarmos de facto juntos, fisicamente, no mesmo espaço. Mas estamos. Estamos na memória quente (ou fria) dos dias; estamos no ar que inspiramos e sentimos a alargar o nosso peito; estamos na saudade que dá uma cor às horas em que ela se faz sentir; estamos... estamos. Estar é talvez o verbo mais bonito do dicionário português. Não o estar de ser, que também esse mesmo é muito bonito, mas o estar de, bem... estar perto, estar numa pessoa, estar no coração. Eu gosto de estar... presente. Seja o passado ou o futuro a delinear esse momento, no presente, que torna infinito o chão e a casa e o momento. Estar é sermos infinitos em alguém. Tu és infinito em mim. Criei-te com sede de amor e deixei-te ficar quando tive a minha primeira desilusão. Quando descobri que o amor é mais vezes mágoa do que alegria. (Apesar de acreditar que esta frase é errada, vou deixá-la aqui porque é bonita.) Estar é sermos bonitos na vida de alguém. Tornaste a minha vida mais bonita. Literariamente e imaginariamente mais bonita. Mas não interessa, porque podemos estar (e ser!) nesses sentidos. Desculpa estou a divagar. Estar na vida de alguém é algo raro e único, que devíamos estimar. Ou saber estimar. Estimar o facto de podermos estar com alguém, tocar, rir, e sentir o calor da amizade no momento, para guardarmos para sempre e continuarmos a estar nos nossos pensamentos, nos nossos órgãos, na nossa vida. Quando alguém nos permite estar, nos deixa entrar e ficar numa parte do coração delas, é algo raro e único. E isso é amor. Estás em mim desde há muito tempo. Isso é amor. Tu sempre foste amor. Amor. Tiago.

(Save yourself - Kaleo)

5.1.18

Gostava que vissem o nosso céu daqui, meu amor. Gostava que vissem as nossas estrelas, neste céu azul escuro, carregado de silêncio e paz. Gostava que sentissem esta paz, e este silêncio, nesta escuridão que nos penetra e nos sussurra ao ouvido um nevoeiro de emoções e de frio, mas ao mesmo tempo tão quente, tão aconchegante, tão nosso. Agora que vejo o céu, não te vejo mais meu amor. O frio passa-me a alma e toca as cicatrizes que tu deixaste. E eu sinto-me bem, debaixo deste céu azul escuro, com as estrelas que iluminam o mundo. Eu preciso deste silêncio, deste escuro, para me encontrar a mim. Preciso deste espaço que por momentos achei que estava em ti e que iria brilhar verdadeiramente. Mas tu não fizeste mais do que escurecer-me, ofegar-me com a tua luz, com essa tua luz que brilha menos que este céu escuro e que magoa mais que este silêncio frio. Debaixo deste céu azul escuro. Como gostava que visses este céu azul e estas estrelas, meu... . Desculpa, nunca me pertenceste. Mas eu dei-me sem perguntas, sem questionar, sem pensar. Principalmente sem pensar. Entreguei-me onde não havia amor, mas sim fome. Entreguei-me onde não havia compaixão, mas sim egoísmo. E sobretudo entreguei-me a um espaço que, se eu o deixasse, a raiva e o rancor iriam ficar. E foi isso que eu te deixei. Mas o que eu deixei preenchido, tornou-se um vazio em mim. E esse vazio em mim magoar-me-á muito mais, gelar-me-á muito mais. Não gostava que o sentisses. Não gostava que ninguém, algum dia, se sentisse assim. Mas gostava que sentissem este frio, debaixo deste céu azul. Tu não. A quem não me traz paz, também não quero que me veja debaixo deste céu azul. Debaixo das minhas estrelas. Debaixo das estrelas do mundo. Onde, no silêncio, recupero mais um pouco de mim. Onde recupero mais um pouco do que ingenuamente deixei. Neste lugar onde, ingenuamente, sei que pertenço.
A tua carta despedida J. 

(Big Picture - London Grammar)