Coloquei duas colheres de açúcar no chá. Era chá de limão e ainda estava quente, por isso esperei que ele arrefecesse. Dou-me conta que sou assim, constantemente, a toda a hora!, que espero e não faço mais nada a não ser esperar. Espero pelo comboio chegar, pela hora certa, por ti, pelas tuas palavras, por este chá. Nada mais sei fazer. Vivo por entre estas palavras que te escrevo, de café em café, entre os acordes de outros homens que eu ignorei, só para por ti esperar.
Fico sentada nesta cadeira, a soprar sobre este chá, a ver as pessoas a passarem lá fora, em busca de algo, ativas, enquanto eu espero. Se as coisas fossem tão lineares, tu estarias a caminho, pois saíste do autocarro do outro lado da rua e agora estás a olhar para a estrada, de um lado e do outro, através dos óculos antigos do teu pai. Pretos, vintage, pouco sentimentais para ele. Estou a imaginar-te a vires no teu ritmo, não muito apressado nem muito vago, com a mão no bolso das calças, a outra liberta, a pensares em mim. Vejo-te do outro lado do vidro do café. Estás a sorrir e eu só me apetece abraçar-te mas espero que entres e me beijes. Mas, na realidade, continuo a esperar e tu nunca mais chegas. O sol torna a rua dourada, chamativa, que me aquece a alma que tu traíste por maldade. Não, a culpa não é tua, por continuar aqui, loucamente apaixonada por ti e a esperar.
Mas por mim? Estarás tu a esperar por mim? Se calhar continuas pelas ruas, a rascunhá-las no teu caderno de capa preta e a sonhar comigo nelas. Se calhar esperas que apanhe o avião e te abrace por trás e ponhas os meus braços à volta do teu pescoço. Tenho a certeza que não tiraste ainda o cheiro a carvão dos teus dedos. Sei que eles te fazem lembrar de mim. Se calhar estás à minha espera.
Se calhar... Mas eu continuo por cá, pela cadeira do café, à espera que este chá perca o calor, tal como este meu coração arrefeça e todo o meu amor se vá, como o fumo deste chá de limão.
12.8.13
9.8.13
Converti-me religiosamente ao som da chegada do mar. Ouço-o de olhos fechados, nesse vai e vem, repetido, sádico, que me faz sentir que estou encostada à tua camisola salgada à tua espera, desejosa por te beijar, por beijar a tua pele doce de mar e areia. Lembro-me das vezes que me levavas à praia, religiosos momentos nossos. Ficávamos a ver o sol a bater nas ondas. Ficávamos a contar grãos de areia, e pensaríamos nós que os contaríamos todos, e quando esse dia chegasse, saberia quão grande era o teu amor por mim. O tamanho do meu já sabias, e sabia a mar, esse mar que chegavas a abraçar pelas ondas, durante esse teu desporto favorito. E ficava a ver-te a deslizar sobre ele. Não me importava de ficar a ver-te a tarde toda, a manhã toda ou o dia todo. Nunca me importei nem me importava mas deixaste que eu me importasse.
Sinto a espuma a molhar-me os dedos dos pés. Muito discretamente ela vem, muito tímida, e vai. Quando sente-se mais solta, chega a molhar-me o pé todo. Mas parece arrepender-se de ter tocado tão longe e volta a chegar-se, aos poucos, tímida, vezes e vezes. Tu não eras assim. Tu chegavas do mar, desapertavas o fato e deitavas-te sobre mim, deixavas-me sentir a tua pele salgada cheia de amor e sal. Acabavas sempre por ter um tom dourado teu, o ano todo, e o cheiro a carvão das tuas mãos fundia-se com o sal do resto do teu corpo. E eu ficava ali, por baixo de ti, por baixo do teu peito ofegante, a sentir o teu amor quente e salgado, só meu.
O mar chama-me sempre, diz-me sempre para tu voltares, para te chamar. Afinal não era só eu a tua sereia apaixonada. Deixaste no mar uma saudade de ti, das tuas mãos grande e da tua pele. Mas tu não voltas. Nunca voltaste. Deixaste-me só, à tua espera, nessa praia onde barco nenhum mais pode atracar. Deixaste-me como mulher à espera do seu pescador, depois de uma longa tempestade atravessada. Nunca mais veio a paz e o mar nunca mais te avistou.
Assim, o mar fala-me sempre de ti. Afaga-me as lágrimas no meio do seu sal e diz-me que um dia sempre voltarás. É isso que eu ouço nas ondas do mar. É por isso que elas batem na minha praia. Batem, mas dizem nunca poderem ficar.
Sinto a espuma a molhar-me os dedos dos pés. Muito discretamente ela vem, muito tímida, e vai. Quando sente-se mais solta, chega a molhar-me o pé todo. Mas parece arrepender-se de ter tocado tão longe e volta a chegar-se, aos poucos, tímida, vezes e vezes. Tu não eras assim. Tu chegavas do mar, desapertavas o fato e deitavas-te sobre mim, deixavas-me sentir a tua pele salgada cheia de amor e sal. Acabavas sempre por ter um tom dourado teu, o ano todo, e o cheiro a carvão das tuas mãos fundia-se com o sal do resto do teu corpo. E eu ficava ali, por baixo de ti, por baixo do teu peito ofegante, a sentir o teu amor quente e salgado, só meu.
O mar chama-me sempre, diz-me sempre para tu voltares, para te chamar. Afinal não era só eu a tua sereia apaixonada. Deixaste no mar uma saudade de ti, das tuas mãos grande e da tua pele. Mas tu não voltas. Nunca voltaste. Deixaste-me só, à tua espera, nessa praia onde barco nenhum mais pode atracar. Deixaste-me como mulher à espera do seu pescador, depois de uma longa tempestade atravessada. Nunca mais veio a paz e o mar nunca mais te avistou.
Assim, o mar fala-me sempre de ti. Afaga-me as lágrimas no meio do seu sal e diz-me que um dia sempre voltarás. É isso que eu ouço nas ondas do mar. É por isso que elas batem na minha praia. Batem, mas dizem nunca poderem ficar.
28.6.13
Pegadas na areia. Só consigo pensar em pegadas na areia. Desenhadas na areia molhada e suavemente apagadas pela espuma salgada, vezes e vezes sem conta. Não consigo pensar em mais nada. Pegadas na areia, na areia molhada, onde nos deitamos e deixamos estar, à espera de ser levados pela espuma. Eu gostava de ser levada pela espuma, pela espuma salgada e fresca, para longe de mim mesma. Já me sinto a flutuar nesse mar salgado e azul, que reflete o céu que me cobre os sonhos e as mágoas. Pegadas na areia e estrelas no céu. São a melhor combinação deste verão que chama por mim e insiste em me levar para longe, para longe de mim mesma. E eu assim o desejo. Tal como desejo neste momento desenhar pegadas minhas na areia molhada, e voltar a desenhá-las, outra vez e outra vez, até elas nunca mais se apagarem. Vejo ao longe o areal castanho, irregular, tal como a pele das nossas mãos. Vejo do outro lado a linha do infinito que insiste em separar o mar do céu, que nasceram para ficar juntos para sempre, tal como as pegadas insistem em ficar na areia, mas o mar não as deixa marcar. E é o sabor salgado na nossa pele ao fim do dia que amámos. O sabor salgado e o moreno na cara e o cheiro a protetor que é pouco mas que fica sempre e é o cheiro a sol e a areia e a mar e a salgado. E é o sabor a salgado nos lábios e nos beijos que fica quando as pegadas na areia não conseguem marcar.
31.5.13
Nunca escrevi como nos conhecemos.
Nunca escrevi como nos conhecemos, pois não? Na verdade, acho que se torna difícil voltar àquele dia, àquelas pessoas, àquele momento. Nunca falamos muito sobre isso, pois não? Curiosamente, não. Lembro-me de passar por ali, de te ver e de sorrires. Sim, tu sorriste-me. Também disseste que viste muito mais do que eu te mostrei e por isso me sorriste. Não sei se isso foi conversa de circunstância, eu estava tão rendida ao teu perfume que mergulhei nos teus olhos sem tu sequer reparares. E no teu sorriso. No momento em que dei por mim, estava sobre o som da tua voz, quente e amarga, como sempre esteve ao longo de todos estes dias e meses e anos. Vieste ter comigo sem me conheceres e eu ofereci-me para continuares ali ao meu lado, para não voltares para junto dos teus amigos e para não me largares nunca mais. Mas o nunca mais não existe, não existiu para ti nem para nós. Mas para mim era a sério. Mas para mim era para sempre nunca mais.
Quem ficou com o quê? Não sei. Às vezes acho que lembrar-me da cor do céu e das nossas sombras é mais importante do que quem deu o primeiro passo. Viste o que mais ninguém em mim viu e ninguém vê. Aquela pequena miúda apaixonada por um grande miúdo. Sem pedires, dei-te tudo, em troca de nada, e o nada restou. É justo. O que reparei logo em ti? A tua descontração e concentração em mim, como se já não restassem mais palavras nem apresentações. No teu nome. Tiago. Tiago-giro. Acreditas que foi o nome que elas te puseram? Tiago-personagem-amor-namorado. Esse foi o que eu te pûs.
E às vezes penso que eras real de mais. Mas outras vezes, deixavas-me ser de menos. As tardes, as mãos dadas, as músicas juntos, as fotografias (eu sei que as tens todas e nem uma guardaste para mim), o meu amor... Levaste-me tudo. E acho que é por isso que não consigo escrever-te mais. Mentira. E acho que é por isso que não nos imagino mais juntos. Minto. E acho que é por isso que não consigo escrever-te mais ou escrever-nos mais ou escrever-te sobre nós mais.
Nunca escrevi como nos conhecemos. Naquele bar. Naquela praia. Naquele ínico de primavera. Naquele amor à primeira vista. Naquele nosso grande amor. Nunca. Minto. Hoje escrevi sobre como nos conhecemos.
Nunca escrevi como nos conhecemos, pois não? Na verdade, acho que se torna difícil voltar àquele dia, àquelas pessoas, àquele momento. Nunca falamos muito sobre isso, pois não? Curiosamente, não. Lembro-me de passar por ali, de te ver e de sorrires. Sim, tu sorriste-me. Também disseste que viste muito mais do que eu te mostrei e por isso me sorriste. Não sei se isso foi conversa de circunstância, eu estava tão rendida ao teu perfume que mergulhei nos teus olhos sem tu sequer reparares. E no teu sorriso. No momento em que dei por mim, estava sobre o som da tua voz, quente e amarga, como sempre esteve ao longo de todos estes dias e meses e anos. Vieste ter comigo sem me conheceres e eu ofereci-me para continuares ali ao meu lado, para não voltares para junto dos teus amigos e para não me largares nunca mais. Mas o nunca mais não existe, não existiu para ti nem para nós. Mas para mim era a sério. Mas para mim era para sempre nunca mais.
Quem ficou com o quê? Não sei. Às vezes acho que lembrar-me da cor do céu e das nossas sombras é mais importante do que quem deu o primeiro passo. Viste o que mais ninguém em mim viu e ninguém vê. Aquela pequena miúda apaixonada por um grande miúdo. Sem pedires, dei-te tudo, em troca de nada, e o nada restou. É justo. O que reparei logo em ti? A tua descontração e concentração em mim, como se já não restassem mais palavras nem apresentações. No teu nome. Tiago. Tiago-giro. Acreditas que foi o nome que elas te puseram? Tiago-personagem-amor-namorado. Esse foi o que eu te pûs.
E às vezes penso que eras real de mais. Mas outras vezes, deixavas-me ser de menos. As tardes, as mãos dadas, as músicas juntos, as fotografias (eu sei que as tens todas e nem uma guardaste para mim), o meu amor... Levaste-me tudo. E acho que é por isso que não consigo escrever-te mais. Mentira. E acho que é por isso que não nos imagino mais juntos. Minto. E acho que é por isso que não consigo escrever-te mais ou escrever-nos mais ou escrever-te sobre nós mais.
Nunca escrevi como nos conhecemos. Naquele bar. Naquela praia. Naquele ínico de primavera. Naquele amor à primeira vista. Naquele nosso grande amor. Nunca. Minto. Hoje escrevi sobre como nos conhecemos.
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